Caso clínico: Canibalismo

Uma médica veterinária foi solicitada a realizar atendimento a granja com aumento de problemas por canibalismo. O sistema era de ciclo completo, com cerca de 300 matrizes e taxa de reposição anual de 50%. Com exceção do canibalismo, a performance do plantel apresentava-se satisfatória, atingindo todas as metas propostas.

Os históricos anteriores da granja mostravam que o canibalismo era observado apenas em uma frequência esporádica, sem afetar os animais de forma significativa. Entretanto, nos últimos dez meses, aquele cenário mudara dramaticamente, com evidente agravamento do problema. Os registros apontaram que, 60 a 70% dos animais de alguns lotes apresentavam lesões de cauda. A condição não parecia estar associada a sazonalidade, mas observou-se que as fêmeas eram as mais afetadas e somente as caudas eram lesadas. O canibalismo iniciava-se na creche e estendia-se até o final do ciclo de produção, com uma incidência maior na fase de recria. Durante a visita, o comportamento que chamou a atenção da veterinária foi a inquietação dos animais, sinal acompanhado por fortes impulsos em morder. Problemas como prolapsos retais, vômitos ou pruridos, embora frequentemente associados ao canibalismo, não haviam sido observados ou registrados.

O proprietário da granja reconhecia que a densidade das baias estava alta, concluindo que aquele devia ser o único motivo associado ao comportamento anormal dos animais. No passado, era respeitado os 0,33 m²/leitão. Hoje, o alojamento de 4 animais/m² até poderia contribuir para o problema, mas a veterinária também suspeitava de uma possível etiologia alimentar.

O milho e o farelo de soja apresentavam aspecto satisfatório. As recentes análises das matérias primas e da ração não detectaram a presença de micotoxinas.

A veterinária também observou que além da alta densidade animal, a higiene das baias era muito ruim. O piso era 100% compacto e apresentava excesso de fezes, umidade e geração abundante de gás. A superpopulação e o ambiente sujo foram julgados como os fatores mais prováveis do aumento do canibalismo. Além disso, como o comedouro sempre fora o mesmo, a proporção de leitões por boca de comedouro aumentou de 6:1 para 8:1. A ação principal na granja seria melhorar as condições ambientais e providenciar comedouros com uma boca a mais que o atual.

 A colocação de correntes e tiras de borracha também foi recomendada como uma medida auxiliar, mas que não apresentaria efeitos satisfatórios se as medidas primariamente citadas não fossem implementadas.

Recomendou-se a realização de um maior número de análises laboratoriais na ração, nas matérias primas e na água; pois apesar de não terem sido identificados problemas aparentes nos alimentos, avaliações relacionadas ao nível Ca, P, NaCl, proteínas e fibras, nunca haviam sido realizadas anteriormente. Sabe-se que todos esses elementos também poderiam estar associados a etiologia dos casos de canibalismo.

Fotos: Jamil Faccin

Adaptado de: Barcellos, D; Sobestiansky, J; Moreno, A. M; Carvalho, L.F.O. Clínica Veterinária em Sistemas Intensivos de Produção de Suínos e Relatos de Casos Clínicos. Gráfica Art 3. Goiânia, 2001. p.96-99

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