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Caso clínico – Torção do mesentério

Durante uma aula prática de patologia veterinária, um grupo de estudantes foi selecionado para realizar a necropsia de um leitão de terminação, proveniente da granja modelo da própria universidade. No histórico, a única informação fornecida consistia no fato de que o suíno morreu de forma súbita. Não havia descrições relacionadas ao status sanitário da granja ou dos manejos realizados em cada fase de produção.

Antes de iniciar a necropsia, os alunos examinaram o leitão minunciosamente. Não observaram lesões de casco, fraturas ou úlceras de decúbito, no entanto, observaram intensamente palidez e o abdômen anormalmente distendido. Os estudantes foram questionados pela professora sobre as possíveis causas da morte do leitão. Além da úlcera gástrica, eles não se recordaram de outra provável causa e justificaram a distensão abdominal como uma alteração post mortem. Havia outros diagnósticos diferenciais a serem considerados, mas a professora preferiu omiti-los e permitiu que os alunos prosseguissem com a atividade.

Ao abrir a cavidade abdominal, as alças intestinais projetaram-se para fora devido ao excesso de pressão. O intestino estava dilatado, repleto de gás e apresentava aspecto hemorrágico e coloração vermelha intensa. A massa do intestino grosso, que deveria estar localizada próximo ao fígado no lado esquerdo, encontrava-se deslocada caudalmente. Adicionalmente, observou-se que as veias do mesentério e sub-serosa do intestino delgado estavam dilatadas e havia conteúdo sanguinolento na cavidade. Por essas observações e pela ausência de lesões em outros órgãos, os alunos concluíram que a causa da morte foi a torção do mesentério. A distensão abdominal não era uma alteração post mortem, como fora sugerido anteriormente por eles.

A torção do mesentério acomete animais saudáveis, principalmente nas fases de crescimento e terminação. Apesar da causa não ser completamente compreendida, sugere-se que a alimentação, os hábitos alimentares, o fornecimento de água e as desordens digestivas são os principais fatores relacionados à essa patologia. Alimentos altamente fermentáveis induzem o excesso de produção de gases no interior do intestino, provocando o aumento da pressão intra-abdominal com consequente congestão de vasos, deslocamento e torção do órgão. Essas alterações resultam um quadro de choque hipovolêmico, no qual há um desbalanço ácido básico severo e morte, sem que os suínos manifestem sinais clínicos prévios. Os diagnósticos diferenciais incluem úlcera gástrica, enterotoxemia, disenteria suína, ileíte e síndrome do intestino hemorrágico.

Devido a complexa razão de sua causa, o controle da torção do mesentério é um grande desafio. As medidas preventivas envolvem a redução de situações estressantes (misturas excessivas de lotes, irregularidade do plano alimentar, superaquecimento do ambiente, densidade alta nas baias etc) o fornecimento de quantidade e área suficiente de comedouros e o aumento de arraçoamentos por dia. O uso de probióticos ou acidificantes pode auxiliar a estabilidade da flora intestinal, permitindo uma redução da incidência da doença.

Foto: Carlos Pereira Júnior

Referências bibliográficas

Barcellos, D.; Driemeier, D. Torção do mesentério. Sobestiansky, J.; Barcellos, D. Doenças dos Suínos. 2. ed.Canone. Goiania, 2012 p. 821-824.

Paladino, E.S.; Guedes, R.M.C. Síndrome da dilatação intestinal. Ciência Rural, Santa Maria, v.41, n.7, jul, 2011 p.1266-1271.

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