O que é o Crescimento Retardado Intrauterino (CIUR) e qual a sua importância?

Diogo Magnabosco
Médico Veterinário, Me., Dr.

O assunto de baixo desenvolvimento dos fetos é recorrente em apresentações e discussões no meio da suinocultura em função das consequências que esta pode trazer ao crescimento futuro dos animais. Mas o que vem a ser esse problema? Quais suas características? Como identificá-lo?  Isso gera prejuízos futuros?

Conceitualmente podemos definir o Crescimento Retardado Intrauterino, também conhecido como IUGR (Intrauterine Growth Retardation), como o insuficiente desenvolvimento dos fetos durante o período gestacional, resultando em conceptos com défice de crescimento e reflexos no peso ao nascer e formação de tecidos e órgãos. Na revisão de Ashworth et al. (2001), os autores definiram que ao conceito de retardo no crescimento podemos incluir aqueles fetos ou neonatos que nascem pesando menos do que dois desvios padrões da média de peso corporal da leitegada. Esse baixo desenvolvimento ainda no ambiente uterino pode ter origem genética, mas em sua maior parte é influenciado pelo ambiente. Muitas são as causas que levam ao IUGR, tais como a nutrição materna (baixo ou alto consumo de alimento, desbalanço nutricional), ingestão de substâncias tóxicas, variações de temperatura ambiental ocasionando estresse térmico, distúrbios nos mecanismos homeostáticos e metabólicos maternos e fetais, entre outros (WU et al., 2006). Entretanto, a principal causa apontada como responsável pela ocorrência deste retardo está ligada a superlotação uterina, decorrente da hiperprolificidade gerada através da seleção e melhoramento genético para alta produção de leitões (VALLET et al., 2011; PARDO et al., 2013).

Cabe lembrar que o baixo peso dos animais pode ser considerado uma característica de retardo no crescimento, entretanto nem todo leitão que nasce leve sofreu IUGR. Alguns autores (AMDI et al., 2013; HALES et al., 2013) buscam caracterizar através de aspectos morfológicos o grau de retardo de crescimento, e esta pode ser uma ferramenta interessante, somada à pesagem dos animais, para determinar se um leitão foi acometido deste défice de desenvolvimento. Os autores utilizaram três critérios, baseados no formato da cabeça dos leitões, para caracterizar o crescimento retardado (Fig. 1):

  1. Cabeça íngreme, tipo testa de golfinho;
  2. Olhos esbugalhados
  3. Rugas/dobras perpendiculares com a boca.

A partir disso, foi determinada a classificação em razão do número de características presentes no mesmo animal. Quando todas as características estavam presentes (grau 3), o leitão apresentava IUGR severa. Se uma ou duas presentes (grau 2), IUGR leve. Se nenhuma das características estivesse presente, o leitão era considerado normal (grau 1).

FIGURA 1: Desenhos ilustrativos de leitões normais e com retardo de crescimento intrauterino (IUGR – Intrauterine Growth Retardation). Desenho adaptado de Hales et al. (2013).

As formas de identificação e precisão do diagnóstico da ocorrência do retardado de crescimento intrauterino dependem muito das ferramentas de medição e do objetivo destas. Em ambientes de pesquisa, a forma de avaliação é através do abate dos animais, com a pesagem dos órgãos e definição das relações de peso destes, combinados com o peso corporal. Este tipo de avaliação visa identificar o padrão assimétrico de crescimento dos órgãos, onde o cérebro tem desenvolvimento normal enquanto o crescimento do fígado, baço, coração, pulmões e tecidos somáticos são afetados negativamente (ASHWORTH et al., 2001, WU et al., 2006; ALVARENGA et al., 2012). Esse fenômeno em que o crescimento do cérebro é relativamente preservado em relação aos demais órgãos é conhecido como “brain sparing” (efeito de “poupar” o cérebro).

A identificação do problema de IUGR à campo fica restrito à medição do peso ao nascimento e também às características morfológicas, sendo frequentemente utilizados estes critérios. Estima-se que aproximadamente 15 a 20% dos leitões nascem com peso inferior a 1,1 kg (WU et al., 2006) e estes leitões são potencialmente mais propensos ao IUGR.

A ocorrência de fetos com IUGR pode ser considerada natural e endêmica (WU et al., 2006), sendo que os processos que induzem ao retardo são bem documentados em animais de produção (vacas, cabras, éguas, porcas e ovelhas). Entretanto, em suínos, a ocorrência de IUGR é acentuada em decorrência do aumento do número de fetos no ambiente uterino.

Em geral, os animais afetados sofrem consequências na vida adulta, apresentando curvas de crescimento inferiores aos seus contemporâneos (ALVARENGA et al., 2012; MAGNABOSCO et al., 2015).  Os índices de mortalidade em geral são muito altos, com um aumento do risco de morte conforme maior o grau de comprometimento do crescimento intrauterino (AMDI et al., 2013; MAGNABOSCO et al., 2015). Além disso, a possibilidade de ocorrência de problemas metabólicos e doenças crônicas já foi relatado em mamíferos com IUGR (BARKER & CLARK, 1997), assim como deficiências no sistema imunológico (ZHONG et al., 2012).

A informação a respeito da ocorrência de crescimento retardado intrauterino pode ajudar a determinar práticas de manejo que visam minimizar as consequências deste problema. Novamente sugere-se considerar o peso ao nascer como uma característica importante no destino destes. Realizar ajustes de manejos pré-natais, como auxílio de mamada e aumento do consumo de colostro, por exemplo, podem aumentar as chances de sobrevivência. Entretanto, ressalta-se que os pesos nas fases subsequentes serão inferiores em leitões de baixo peso ao nascer. Para a próxima decada de progresso na suinocultura, as empresas de melhoramento genético devem continuar focando em aumentar o peso dos leitões ao nascimento para minimizar a prevalência de leitões de baixo peso. 

Referências bibliográficas:

ALVARENGA, A.L.N.; CHIARINI-GARCIA, H.; CARDEAL, P.C.; MOREIRA, L.P.; FOXCROFT, G.R.; FONTES, D.O.; ALMEIDA, F.R.C.L. Intra-uterine growth retardation affects birth weight and postnatal development in pigs, impairing muscle accretion, duodenal mucosa morphology and carcass traits. Reproduction, Fertility and Development. v. 25 n.2, p. 387-395. 2012.

AMDI, C.; KROGH, U.; FLUMMER, C.; OKSBJERG, N.; HANSEN, C.F.; THEIL, P.K. Intrauterine growth restricted piglets defined by their head shape ingest insufficient amounts of colostrum. Journal of Animal Science. v. 91, p. 5605-5613. 2013.

ASHWORTH, C.J.; FINCH, J.M.; PAGE, K.R.; NWAGWU, M.O.; MCARDLE, H.J. Causes and consequences of fetal growth retardation in pigs. In: Control of pig reproduction VI, Reproduction Supplement. Ed. Notingham-Inglaterra: Nottingham University Press. p. 233-246. 2001.

BARKER, D.J.; CLARK, P.M. Fetal undernutrition and disease in later life. Reviews of Reproduction. v. 2, p. 105-112. 1997.

HALES, J.; MOUSTSEN, V.A.; NIELSEN, M.B.F.; HANSEN, C.F. Individual physical characteristics of neonatal piglets affect preweaning survival of piglets born in a noncrated system. Journal of Animal Science. v. 91, p. 4991-5003. 2013.

MAGNABOSCO, D.; BERNARDI, M. L.; CUNHA, E. C. P.; WENTZ, I.; BORTOLOZZO, F. P. Impact of the Birth Weight of Landrace x Large White Dam Line Gilts on Mortality, Culling and Growth Performance until Selection for Breeding Herd. Acta Scientiae Veterinariae. v. 43, p. 1274. 2015.

PARDO, C.E.; BÉRARD, J.; KREUZER, M.; BEE, G. Intrauterine crowding impairs formation and growth of secondary myofibers in pigs. Animal. v. 7, n. 3, p. 430-438. 2013.

VALLET, J.L.; FREKING, B.A.; MILES, J.R. Effect of empty uterine space on birth intervals and fetal and placental development in pigs. Animal Reproduction Science. v. 125, n. 1, p. 158-164. 2011.

WU, G.; BAZER, F.W.; WALLACE, J.M.; SPENCER, T.E. Board-Invited Review: Intrauterine growth retardation: Implications for the animal sciences. Journal Animal Science. v. 84, p. 2316–2337. 2006.

ZHONG, X.; LI, W.; HUANG, X.; WANG, Y.; ZHANG, L.; ZHOU, Y.; HUSSAIN, A.; WANG, T. Effects of glutamine supplementation on the immune status in weaning piglets with intrauterine growth retardation. Archives of Animal Nutrition. v. 66, n. 5, p. 347-356. 2012.

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