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Caso clínico – Enteropatia proliferativa

Um laboratório recebeu quatro segmentos de intestino delgado provenientes de uma granja de ciclo completo. De acordo com o histórico incluído na solicitação de exames, os órgãos eram referentes a leitões na fase recria, os quais apresentaram redução de performance e foram oriundos de lotes com evidente desuniforminade das baias. Eventualmente, observavam-se animais com diarreia amarelada ou acinzentada, mas este sinal clínico não era expressivo. Na avaliação macroscópica do intestino, observou-se espessamento da mucosa do íleo, hiperemia das pregas e aumento de volume dos linfonodos mesentéricos. O médico veterinário responsável pelo sistema conhecia o histórico e o status sanitário do rebanho, assim como a patogenia e os sinais clínicos das principais afecções que atingiam a granja. Esse fator o auxiliou a direcionar suas solicitações de exames e formular uma lista de possíveis diagnósticos clínicos. Suas principais suspeitas estavam entre a enteropatia proliferativa (apresentação subclínica da doença) e a salmonelose, mas ele não descartou as infecções causadas pela Brachyspira hyodysenteriae ou Brachyspira pilosicoli. Os exames solicitados consistiram em histopatologia, isolamento e PCR do conteúdo intestinal.

Não houve crescimento de colônias de Salmonella spp. ou Escherichia coli em meio de cultura. Na análise histopatológica, observou-se hiperplasia de enterócitos imaturos, hiperemia e abscessos de cripta, lesões bastante sugestivas de infecção por L. intracellularis. Para confirmar a suspeita, os tecidos foram encaminhados para o processamento imunohistoquímico, o que possibilitou a observação da bactéria em enterócitos e em macrófagos. A PCR foi realizada no intuito de detectar o DNA de L. intracellularis, B. hyodysenteriae e B. pilosicoli, no entanto, as amostras se revelaram positivas apenas para o primeiro agente.

A suspeita do médico veterinário foi confirmada, restando-lhe implementar estratégias para controle da L. intracellularis na granja. Sabe-se que a pressão de infecção do rebanho está relacionada a um programa de limpeza e desinfecção deficiente (Resende et al., 2019), fator que exigiu que as medidas de higiene entre os lotes fossem aplicadas de maneira mais rigorosa.

Outra medida para controlar a pressão de infecção por L. intracellularis é por meio das “janelas imunológicas”. Essa estratégia consiste em um pulso de medicação com duração de 7 a 14 dias, na entrada da recria, e após um intervalo de três a quatro semanas, no qual os leitões têm a oportunidade de entrarem em contato com o agente e desenvolverem uma resposta imunológica, realiza-se outro pulso de 7 a 14 dias. Ressalta-se que essa estratégia medicamentosa só deve ser implementada sob a orientação de um médico veterinário que conheça o status sanitário do sistema.

A vacinação também é uma alternativa interessante para o controle da enteropatia proliferativa. Atualmente, existem duas vacinas disponíveis no mercado e ambas apresentam eficiência relacionada à redução da eliminação da bactéria pelas fezes e à indução de resposta imune protetora contra o agente. O momento ideal para a vacinação deve considerar a duração da imunidade materna e a dinâmica de infecção do rebanho, que pode ser determinada por meio de ensaios laboratoriais. A sorologia é uma ferramenta útil, barata e pode ser executada em um volume maior de amostras, sendo ainda possível utilizar, além do soro, os fluidos orais para a detecção dos anticorpos. Geralmente, a soroconversão em animais de crescimento ocorre de três a quatro semanas após a eliminação da bactéria nas fezes. A vacina é indicada para animais a partir de três semanas de idade e deve ser introduzida de cinco a seis semanas antes da idade esperada de soroconversão. A imunidade conferida pelo produto tem duração de, pelo menos, vinte semanas a partir da aplicação.

Fotos: Amanda Gabrielle de Souza Daniel

Referências: Guedes, R. M. C. 2012. Enteropatia proliferativa. In: Sobestiansky, J. & Barcellos, D. Doenças dos Suínos. 2ªed. Goiânia: Cânone Editorial. p. 159-167. Resende, T.P. Pereira, C.E.R. Gabardo, M.P. Haddad, J.P.A. Lobato, Z.I.P. Guedes, R.M.C.  Serological profile, seroprevalence and risk factors related to Lawsonia intracellularis infection in swine herds from Minas Gerais State, Brazil. BMC Vet. Res. (2015).

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