Fui fazer estágio em uma granja na Dinamarca, mas e aí?!

No ano de 2016 já no meu oitavo período da faculdade de Medicina Veterinária, decidi que precisava fazer um intercâmbio. Este sempre foi um sonho, mas precisava encontrar um momento certo. Já estava envolvido com a produção de suínos e então procurei um programa que associasse o aprendizado da língua inglesa com o trabalho remunerado.

Encontrei uma empresa que atua na Dinamarca como uma cooperativa de produtores e estes solicitam estagiários de acordo com suas demandas. Optei por trabalhar em uma granja produtora de leitões, mas também existia a possibilidade de trabalhar com vacas leiteiras. Pois bem, fui!

Ao chegar na Dinamarca fui muito bem recebido e tive um período de 5 dias para me adaptar e também por questões de biosseguridade da própria granja. Durante esses dias regularizei todos os meus documentos, recebi meu CPR (parecido com o CPF brasileiro) e também um cartão de saúde (yellow card) para o uso do sistema público do país.

A granja que fui designado possuía 1000 matrizes e era dividida entre dois setores: gestação e maternidade. Fiquei responsável por toda a gestação e seus manejos, já na maternidade um outro funcionário era o responsável. Demorei quase dois meses para entender e me acostumar com os serviços que eram bem puxados e cansativos. Na gestação fui responsável por: inseminação, diagnóstico de prenhes via ultrassonografia, arraçoamento das matrizes, deslocamento dos plantéis dentro da granja, vacinação, eutanásia de animais debilitados e limpeza de galpões.

Sempre ouvia falar muito bem da Dinamarca como produtora e exportadora não só de carne, mas também de genética e realmente eles se preocupam muito com a manutenção das características desejáveis nos plantéis. O sêmen chegava todas as terças feiras junto de um atestado veterinário que garantia qualidade e exclusão de qualquer doença transmissível via ejaculado. Além disso, a inseminação era realizada fêmea por fêmea e qualquer alteração (refluxo ou não aceitação da fêmea) devia ser reportada via sistema.

Mas o que de diferente é feito lá que não fazemos aqui que poderia justificar o êxito dos dinamarqueses na produção de suínos?! Eles se orgulham de uma fêmea com ótimo instinto materno e realmente os índices de esmagamento e refugos eram bem baixos, o que justifica um número alto de desmamados/porca/ano que girava em torno de 37,4.

Bom, em relação aos cuidados de biossegurança, não percebi muitas diferenças com as que temos aqui no Brasil. Tomávamos banho na entrada e saída da granja e caso tivéssemos contato com outros suínos, o período de afastamento era de 5 dias. A formulação e fabricação de ração eram feitas na propriedade e distribuída por caminhão próprio. As visitas do veterinário e da zootecnista eram mensais e duravam um dia inteiro. Nessas visitas eu tinha a oportunidade de aprender e trocar informações com esses profissionais e pude ver doenças que não temos no Brasil, como a PRRS.

A escolha de um intercâmbio de trabalho deve ser bem criteriosa e também entender que o objetivo principal é o estágio e que outras coisas como viagens, aprendizado de línguas e dinheiro são consequências.

Tive o direito a 5 semanas de férias nesse ano de estágio e o meu salário girava em torno de 6mil reais. A Dinamarca é um dos países que mais cobra imposto sobre o salário do mundo, entretanto era visível o investimento do governo em saúde, segurança e direitos ao trabalhador. Com o que recebia lá, conseguia pagar o meu aluguel, fazer compras fartas de supermercado e ainda juntar um pouco.

Ao fim desses 13 meses de experiência, recebi uma proposta de ser efetivado pela empresa e ganhei uma carta de recomendação do meu chefe. Mas o que mais me enriqueceu como profissional foi a oportunidade de estar do outro lado, de entender a rotina e as dificuldades do funcionário de granja e poder aplicar como veterinário. Muitas vezes aplicamos a teoria sem perceber se aquilo é prático e aplicável, sem entender que cada sistema é diferente e por isso não atingimos metas ou objetivos desejáveis. 

Os dinamarqueses são pessoas extremamente educadas e agradáveis, com objetivos muito concretos e bastante determinados. Tem muito orgulho do que produzem e fazem isso com muito amor. Nada muito diferente de nós brasileiros. Mas o que mais estimula esses produtores é a competição, estão sempre querendo ser melhores, buscando novas tecnologias e aplicando conhecimento fundamentado nas suas decisões. Seguem a risca o que é passado e o mais importante: fazem isso com muito amor.

Escrito por: Marlon Guimarães Barros Filho

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